quarta-feira, 13 de abril de 2016

Por um mundo no qual as pessoas peçam a própria sobremesa.




          Vocês saíram para comer fora. Você e mais alguém. Não sei se é seu marido, seu namorado, sua mãe, seu tio, seu irmão, sua amiga, seu primo, sua supervisora, seu ortodontista, não sei. Sei que muito frequentemente esse episódio do roubo de sobremesa é protagonizado por homens. Mas também pode não ser. Por isso, nenhum de nós nunca está seguro.
          Tudo começou bem. Bebidinhas, entradinhas, conversinhas. Depois veio o prato principal. Maravilha. Alguns minutos se passam e o garçom faz a pergunta decisiva: sobremesa?
Muito provavelmente você pediu para dar uma olhadinha no cardápio. E o outro disse orgulhoso: eu não vou querer nada. Ou ainda: vou querer mais uma cervejinha, só. Ou ainda: só um café, por favor.
          E então foi você, na sua, literalmente, doce ilusão, e começou a escolher. Brownie. Cheesecake. Petit Gateau. Mousse de maracujá. Mini churros. Sundae. Torta de limão. Creme de papaia. E perguntou para ele: TEM CERTEZA DE QUE VOCÊ NÃO VAI QUERER NADA? E ele, do alto de sua elegância: não não, tô cheio.
          Muito bem.Você chama o garçom e pede: um petit gateau, moço, por favor. Tudo bem. Continuam conversando na boa. Até que o garçom se aproxima, como num filme de suspense e coloca DUAS- eu disse DUAS- colheres na mesa. Você já fica preocupada. Mas bate um fio de esperança, porque ele disse que não queria mesmo, que estava cheio. Tudo bem, vai dar tudo certo.
          Aí você sente aquele cheirinho. Aquele maravilhoso cheirinho de chocolate que se aproxima da mesa. Chega o prato. No início bate um leve sentimento de tristeza porque você queria que o bolinho tivesse o diâmetro de uma bola de boliche e ele está mais para bola de golf, mas tudo bem, afinal a sobremesa É SÓ SUA, NÉ?
          Você pega a colher, corta o bolinho, o recheio escorre, cena dos deuses. Você come o primeiro pedaço e pensa “queria tanto que esse momento não acabasse nunca”. Dá a segunda colherada e ele pergunta “tá bom?”. Você faz um “aham” e nem olha para a cara dele para evitar riscos. Terceira colherada.
          De repente você vê um movimento no canto do olho. A segunda colher. Jesus. Ele pegou. Por quê? Por quê? Por quê? Algumas músicas tocam no seu coração. A trilha sonora de Psicose. A trilha sonora de Tubarão. Até que a colher proibida é cravada no seu bolinho. E uma estaca entra dolorosamente no seu coração. Ele começou o ataque e você já sabe: ele não vai parar até o final.
          E então vocês começam um tipo de luta pela sobrevivência no melhor estilo Discovery Channel. As colheres se apressam. O prato começa a ficar branco. Você tenta garantir a última parte do sorvete porque ele já roubou a calda de frutas vermelhas e o bolinho ainda dá para os dois, mas você pensa “eu vou pegar esse pedação inteiro mesmo porque fui eu que pedi esse negóc… ai, não vou. Vou deixar metade pra ele. Para esse filho da mãe. E vou. Eu preciso deixar. Ai que ódio.”
          E então o seu delicioso momento da sobremesa se tornou um momento de tensão, suspense, dor, batalha, pressa, disputa e raiva. Mas você não falou nada. Ou limitou-se a dizer “para quem não queria sobremesa até que você tá comendo bem né?”.
          Olha, dói muito. Vocês precisam perceber que isso não é justo.
          E o negócio vai ficando mais grave quando a pessoa já fica tão à vontade com você, que diz não querer sobremesa, mas quando você fala “tá bom, então vou pedir uma torta de maçã” ela retruca “ahhhhh, sério???? torta de maçã?????” MEU FIIIIILHOOOOO, a sobremesa não é sua. E você disse que não queria nadaaaaaaa. Me respeitaaaaaaaaaaa.
          Pior do que isso, só aqueles infelizes que comentam as calorias da nossa sobremesa no momento em que ela chega. Esses deveriam ser banidos do universo para sempre. E acredite ou não, essas pessoas também pegam um, dois, três, sete pedacinhos para “só para provar”, afinal, “ui ui ui, eu não como doce”. Aham. Tá.
          Pessoas do mundo. Especialmente homens. Contribuam para um mundo melhor: por favor, peçam suas próprias sobremesas. Nos deixem ser felizes. Nos deixem comer em paz. Ou no mínimo tenham a decência de dizer “vamos dividir?” para que a gente se prepare psicologicamente. Dividir conscientemente é uma coisa, ser furtado é outra.
          Só não venham com essa história de “vou só experimentar” e comer metade do negócio. Isso é uma sacanagem das grandes, minha gente. Não façam mais isso. Mais amor e mais sobremesa, por favor.

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